Vestuário na disputa pela renda do consumidor brasileiro
- José Luiz Lugli

- há 3 dias
- 15 min de leitura
Bets, dívida, celular, streaming, cuidados pessoais — porque a renda recorde do brasileiro compra a mesma quantidade de roupa de dez anos atrás. E o que o gestor da confecção pode fazer com isso.
No artigo anterior desta série, Quem é o consumidor brasileiro de moda em 2026?, mostramos como esse consumidor compra: híbrido na maior parte do tempo, exclusivamente físico em uma minoria leal, seletivo em todas as situações. Mas conhecer o comportamento não responde a pergunta que todo confeccionista faz: por que esse consumidor, mesmo precisando de roupa, destina cada vez menos do orçamento a ela?
A resposta não está em queda de renda — está no maior paradoxo do consumo brasileiro da década. Em 2025, o rendimento médio bateu o recorde histórico da série do IBGE: R$ 3.367 por mês, quarto ano seguido de alta, 12,8% acima de 2012 em termos reais. As classes A, B e C reúnem 78% da população, o maior patamar já registrado pela FGV. E, mesmo assim, a fatia da roupa no orçamento das famílias encolheu para pouco mais da metade do que era em 2009. O dinheiro existe. Ele apenas mudou de endereço: bets, serviço da dívida, celular, streaming, delivery e a economia da aparência.
Este artigo mostra, com dados oficiais e estimativas claramente identificadas, como essa migração aconteceu — e o que o gestor da confecção pode fazer para não perder o cliente que ainda compra.

O que esse artigo oferece é mais que só informação, é uma base concreta para levar a empresa na direção certa.
Antes de começar: o que é dado oficial e o que é estimativa
A confiança do leitor Lugli é o nosso principal ativo. Por isso, este artigo separa com rigor duas naturezas de informação:
DADO OFICIAL |
Números publicados por instituições de pesquisa: IBGE (PNAD Contínua e POF - Pesquisa do Orçamento das Famílias), Banco Central, FGV Social, CNC, IEMI, NielsenIQ. Aparecem no texto com a fonte e a data. Exemplo: renda média de R$ 3.367 em 2025 (IBGE); endividamento de 49,9% (Banco Central). |
ESTIMATIVA |
Cálculos da Lugli construídos a partir de âncoras oficiais. A pesquisa oficial de orçamento familiar (POF/IBGE) é quase decenal — a última é de 2017-18 e a nova, que incluirá as bets pela primeira vez, ainda não foi divulgada. Os valores anuais entre as POFs, a fatia atual do vestuário (~3,2%) e a correlação renda × roupa são estimativas ancoradas nesses dados, e o texto sempre as identifica como tal. |
1 — A renda subiu. A matriz de gastos virou de cabeça para baixo.
Antes de discutir bets, dívida ou streaming, é preciso dimensionar a mudança estrutural: o orçamento do brasileiro de 2025 não tem a mesma cara do de 2012 — não porque ele ganha menos, mas porque há mais categorias disputando o mesmo bolso.

📊 INFORMAÇÃO |
IBGE (PNAD Contínua, mai/2026): rendimento médio de R$ 3.367/mês em 2025 — recorde da série, +5,4% sobre 2024 e +12,8% sobre 2012, em valores reais. A renda domiciliar per capita chegou a R$ 2.264, 18,9% acima do pré-pandemia. FGV Social (jan/2026): as classes A, B e C somam 78,2% da população — recorde desde 1976. A classe C, sozinha, reúne 61% dos brasileiros: é o coração do mercado de moda. NielsenIQ via Fecomercio (2026): no curto prazo, a renda subiu 3,8% entre 2024 e 2025, mas o consumo das famílias avançou apenas 1,3%. Os produtos de abastecimento doméstico caíram de 23,2% para 21,9% do orçamento entre 2023 e 2025, enquanto os gastos secundários (lazer, tecnologia, serviços) subiram de 29,2% para 31,4%. |
📚 FONTE |
IBGE — PNAD Contínua, Rendimento de todas as fontes (mai/2026); FGV Social — Marcelo Neri, Evolução das Classes Econômicas 1976-2024 (jan/2026); NielsenIQ via Fecomercio, Ranking Abad 2026. |
⚠ CONSEQUÊNCIA |
A renda do brasileiro não é menor — está dividida entre mais coisas. O consumidor compra hoje praticamente o mesmo número de peças de dez anos atrás, com uma renda 13% maior: o volume do varejo de moda está estagnado em torno de 6,3 bilhões de peças/ano desde 2017 (IEMI), enquanto quase todo o resto do orçamento cresceu. Para a confecção, a estratégia de vender mais peças ao mesmo cliente tem teto. O caminho não é volume — é margem por peça e relevância por categoria. |
✅ DISCUTIR COM SEU TIME |
Para o varejo: revisar fidelidade e parcelamento — facilitar o acesso a peças de maior ticket rende mais do que descontar peças básicas. Para a confecção: reduzir SKUs no básico genérico e ampliar mix em categorias inegociáveis (athleisure, profissional, infantil de ocasião). Para o fabricante: programações trimestrais com flexibilidade de mix reduzem o capital que o cliente empata em estoque parado. |
Tabela 1 — A renda do brasileiro em cinco fotografias (IBGE, valores de 2025)
Ano | Renda média individual | Renda per capita | Momento |
2012 | R$ 2.985 | ~R$ 1.790* | Início da série do IBGE |
2014 | R$ 3.135 | ~R$ 1.885* | Pico do primeiro ciclo |
2019 | R$ 3.100 | R$ 1.904 | Pré-pandemia |
2021 | R$ 2.831 | R$ 1.692 | Piso histórico (pandemia) |
2025 | R$ 3.367 | R$ 2.264 | Recorde — 4º ano seguido de alta |
* Valores per capita de 2012-2014 são estimativas; os demais são oficiais do IBGE. Todos deflacionados pelo IPCA para reais de 2025.
2 — O paradoxo do vestuário: renda recorde, guarda-roupa em queda
Aqui entra o dado que dimensiona o problema do setor. A POF, pesquisa oficial de orçamentos do IBGE, registrou o vestuário com 5,5% das despesas de consumo em 2008-09 e 4,1% em 2017-18. Nossa estimativa, ancorada nessas duas medições e nos dados setoriais recentes, aponta cerca de 3,2% em 2025. Em quinze anos, a roupa perdeu quase metade do espaço que ocupava no bolso do brasileiro — enquanto a renda dele batia recorde.

Gráfico 2 — Linha cheia: dados oficiais da POF. Linha tracejada: estimativa Lugli ancorada na POF (Pesquisa do Orçamento das Famílias).
📊 INFORMAÇÃO |
Cruzando as séries de renda (IBGE) e de orçamento (POF + estimativas), a Lugli calculou a correlação entre a renda per capita e o gasto com roupa entre 2012 e 2025. O resultado: a correlação entre renda e gasto real com vestuário é praticamente zero. A renda subiu 26% no período e o gasto com roupa por pessoa ficou parado. Já a correlação entre renda e a FATIA do vestuário no orçamento é negativa: quanto mais o brasileiro ganha, menor o percentual que destina à roupa. No varejo, o IEMI confirma o retrato por outro ângulo: 6,34 bilhões de peças vendidas em 2017, 6,37 bilhões projetadas para 2025 — volume estagnado há oito anos, com a população 5% maior. O faturamento nominal cresceu (R$ 223 bilhões em 2017 para R$ 315 bilhões projetados em 2025), mas, descontada a inflação, o mercado encolheu cerca de 5% em termos reais. |
📚 FONTE |
IBGE — POF 2008-09 e 2017-18; IBGE — PNAD Contínua (2012-2025); IEMI — Instituto de Estudos e Marketing Industrial (2017-2025). Correlação e fatia de 2025: estimativa Lugli ancorada nas fontes oficiais. |
⚠ CONSEQUÊNCIA |
É a Lei de Engel aplicada à moda: vestuário se comporta como categoria madura, em que a renda extra não retorna. O consumidor não está dizendo 'sua roupa é cara' — está dizendo 'sua roupa não é prioritária'. O crescimento do faturamento setorial vem de preço e mix, não de mais peças no guarda-roupa. Planejar coleção com base em 'renda recorde' sem olhar a estrutura do orçamento é errar a demanda. |
✅ DISCUTIR COM SEU TIME |
Para a confecção: posicionar a peça como portadora de significado, função ou identidade — não como item utilitário trocável. Para o varejo: comunicar momentos de uso específicos (peça de trabalho, de ocasião, presente), porque o consumidor compra roupa contextual por necessidade clara. Para o fabricante de fios: oferecer fibras e títulos que permitam diferenciação técnica visível ao consumidor final. |
Tabela 2 — O varejo de moda em números (IEMI)
Ano | Peças vendidas | Faturamento (nominal) | Em reais de 2025 |
2017 | 6,34 bilhões | R$ 223,3 bi | ~R$ 333 bi |
2022 | 6,27 bilhões | R$ 265,8 bi | ~R$ 303 bi |
2023 | 6,01 bilhões | R$ 278,8 bi | ~R$ 304 bi |
2024 | 6,17 bilhões | R$ 294,8 bi | ~R$ 311 bi |
2025* | 6,37 bilhões | R$ 314,9 bi | R$ 315 bi |
* Projeção IEMI. Deflação para reais de 2025 pelo IPCA (cálculo Lugli). Leitura: oito anos de volume estagnado e queda real de ~5% no faturamento.
3 — Para onde o dinheiro foi: as duas ondas de substituição
A migração do orçamento não aconteceu de uma vez, nem começou com as bets. Os dados oficiais da POF e as evidências setoriais recentes mostram duas ondas distintas — e entender a sequência importa, porque cada onda exige uma resposta diferente da confecção.

Gráfico 3 — Variação estimada da fatia de cada grupo no orçamento entre 2012 e 2025, em pontos percentuais.
📊 INFORMAÇÃO |
PRIMEIRA ONDA (2009-2019) — serviços essenciais. Entre as duas POFs oficiais, enquanto o vestuário perdia 1,4 ponto percentual, os ganhadores foram educação (+1,7 p.p.), saúde (+0,9 p.p.) e habitação (+0,7 p.p.). Celular, internet e TV por assinatura também avançaram. A roupa perdeu primeiro para a mensalidade, o plano de saúde e a conta de telefone. SEGUNDA ONDA (2020-2025) — telas, apostas e comida. A inflação de alimentos devolveu à comida parte do espaço que ela vinha perdendo. O streaming saiu de zero para presença em 44% dos domicílios com TV (33,4 milhões de lares). E as bets saltaram de irrelevantes para a categoria que mais cresceu na história recente do orçamento — tema da seção 4. As cinco categorias 'novas' do orçamento (bets, celular premium, assinaturas digitais, delivery/mobilidade e cuidados pessoais) capturam hoje o espaço que antes se dividia entre vestuário, bens duráveis e poupança. |
📚 FONTE |
IBGE — POF 2008-09 vs 2017-18 (variações oficiais da primeira onda); IBGE/PNAD TIC e PwC (streaming); NielsenIQ via Fecomercio (2026); estimativas Lugli para a decomposição 2012-2025 do Gráfico 3. |
⚠ CONSEQUÊNCIA |
A disputa não é mais com a Shein no preço — é com o iFood, o Netflix e a bet pelo espaço no cartão de crédito. E há uma diferença estratégica entre as ondas: a primeira (saúde, educação, moradia) é irreversível, são gastos que não voltam atrás; a segunda (bets, assinaturas) é comportamental e pode ser disputada por quem oferecer à roupa um papel de significado, função e identidade. |
✅ DISCUTIR COM SEU TIME |
Para a confecção: aceitar que o concorrente real é o conjunto de categorias que disputam o cartão — e sair do terreno do substituível. Para o varejo: comunicar a peça dentro de rotinas que o consumidor já paga para manter (trabalho, treino, ocasião social). Para o fabricante: fios com diferencial técnico documentado dão ao confeccionista argumento de valor numa disputa que não é mais de preço. |
4 — Bets: o disruptor que drena mais que todo o varejo de moda fatura
De todas as categorias que recompuseram o orçamento, as apostas online merecem análise separada — pela velocidade, pela dimensão e pelo impacto direto e documentado sobre o vestuário.
📊 INFORMAÇÃO |
CNC (abr/2026): os gastos com bets cresceram mais de 500% em três anos; entre janeiro de 2023 e março de 2026, a inadimplência associada a apostas retirou R$ 143 bilhões do varejo — o equivalente às vendas dos Natais de 2024 e 2025 somados. O gasto mensal com plataformas de apostas supera R$ 30 bilhões. O dado mais direto para o nosso setor: 23% dos apostadores declararam ter reduzido gastos com VESTUÁRIO para manter as apostas (CNC). Ibevar/FIA (mar/2026): a cada 1% de aumento nas apostas, o endividamento cresce 0,23% — as bets superaram os juros como principal fator de endividamento das famílias. A régua de comparação: R$ 30 bilhões mensais em bets é MAIS do que o faturamento de todo o varejo de moda brasileiro, que gira em torno de R$ 26 bilhões por mês (IEMI, 2025). Nota de rigor: há divergência metodológica entre as fontes. A LCA/IBJR mede o gasto líquido (apostas menos prêmios devolvidos) e chega a 0,46% do consumo das famílias; a CNC mede a movimentação bruta. As duas leituras são legítimas — a drenagem de caixa no mês é a bruta; a perda definitiva de renda é a líquida. |
📚 FONTE |
CNC — estudo Impacto das Apostas Online no Endividamento das Famílias (abr/2026); Ibevar/FIA Business School (mar/2026); IBJR/LCA Consultoria (2025-26); Banco Central (2026); Agência Brasil (abr/2026). |
⚠ CONSEQUÊNCIA |
Quando o presidente da Abiec afirma que o consumo de carne caiu 9% em 2025 com preço estável — 'não é preço, é renda' —, está descrevendo o mesmo fenômeno que atinge a roupa: categoria substituível no orçamento de quem precisa pagar dívida de aposta. A Copa do Mundo de 2026 é apontada pelo IBJR como gatilho adicional, pressionando o orçamento justamente no pico de vendas de inverno e início da coleção primavera-verão. |
✅ DISCUTIR COM SEU TIME |
Para a confecção: aceitar que parte do volume perdido não voltará — não é problema de produto, é orçamento alheio — e reorientar mix para o cliente que compra com critério. Para o varejo: fidelidade com cartão próprio e parcelamento sem juros real ganham peso como retenção. Para o fabricante: contratos de programação trimestral com clientes -chave reduzem o risco de pedido cancelado por aperto de capital de giro na ponta. |
5 — A despesa invisível: o serviço da dívida come 30% da renda antes da primeira compra
Há uma despesa que não aparece em nenhuma pesquisa de orçamento como 'categoria de consumo', mas que hoje decide se a família compra roupa ou não: a dívida. Antes de o consumidor escolher entre a peça nova e o delivery, quase um terço da renda dele já saiu de casa — para parcelas e juros.

Gráfico 4 — O serviço da dívida consome nove vezes mais renda do que o vestuário.
📊 INFORMAÇÃO |
Banco Central (2026): o endividamento das famílias atingiu 49,9% da renda anual disponível — o maior nível da série iniciada em 2005. Na prática, metade de tudo o que as famílias recebem em um ano já está comprometida com dívidas. O comprometimento MENSAL da renda com o serviço da dívida chegou a 29,7%: de cada R$ 100 que entram, quase R$ 30 saem para parcelas e juros antes de qualquer decisão de consumo. Desses, R$ 10,60 são só juros — dinheiro que não amortiza nada, não vira patrimônio, simplesmente vai embora. Peic/CNC (2026): 80,9% das famílias declaram alguma dívida, recorde da série. O cartão de crédito é o principal fator para 83,6% delas, com o rotativo custando de 428% a 440% ao ano. Em reais, por família: aplicando os percentuais do BC à renda familiar média estimada (~R$ 6.300/mês), o serviço da dívida consome cerca de R$ 1.870 mensais — R$ 670 por pessoa (estimativa Lugli). O vestuário, na mesma família, fica em torno de R$ 200. |
📚 FONTE |
Banco Central — Estatísticas Monetárias e de Crédito (2026); Peic/CNC (abr-mai/2026); FGV IBRE — Boletim Macro (mar/2026); Senado Notícias (mai/2026). Valores em reais por família: estimativa Lugli sobre dados oficiais. |
⚠ CONSEQUÊNCIA |
A dívida é a primeira concorrente da roupa — vem antes do iFood e da bet, porque é descontada antes. E os dois fenômenos se retroalimentam: o Ibevar mostrou que as apostas são hoje o principal motor do endividamento, e o endividado corta exatamente as categorias adiáveis — vestuário à frente. Para o varejo de moda, isso explica por que o crediário próprio voltou a ser arma estratégica: quem financia a peça fora do rotativo do cartão devolve ao consumidor endividado a capacidade de comprar. |
✅ DISCUTIR COM SEU TIME |
Para o varejo: crediário próprio e parcelamento fora do cartão são diferenciais reais num país com rotativo acima de 400% ao ano. Para a confecção: acompanhar a Peic e o comprometimento de renda do BC como indicadores antecedentes de demanda — eles caem antes de o pedido cair. Para o fabricante: entender que o ciclo de desalavancagem das famílias (Desenrola 2.0, queda futura da Selic) será o gatilho da retomada de volume — e se posicionar em capacidade antes dela. |
6 — A economia da aparência: quando a pele disputa com a peça
Há um componente menos discutido e igualmente relevante: cuidados pessoais, estética, suplementos e academia deixaram de ser gastos eventuais e viraram itens fixos do orçamento urbano — com o influenciador digital no centro dessa reorientação.
📊 INFORMAÇÃO |
Tendências Consultoria (2025) classifica o avanço dos cuidados pessoais como 'mudança estrutural no padrão de consumo'. Marcas locais de higiene cresceram 9,9% em 2025 enquanto as globais recuaram 3,3% — redirecionamento de gasto, não retração. O canal farmacêutico cresceu 16% em faturamento no primeiro trimestre de 2026, o melhor desempenho entre todos os canais monitorados (Termômetro Abad NielsenIQ). Pesquisas qualitativas setoriais indicam que jovens-adultos das classes B e C destinam entre 8% e 15% da renda a cuidados pessoais — contra 2% a 5% em 2014 (estimativa qualitativa, sem série oficial). |
📚 FONTE |
Tendências Consultoria (2025); Termômetro Abad NielsenIQ (mar/2026); NielsenIQ via Fecomercio (2026). A faixa de 8-15% é estimativa qualitativa agregada, não dado censitário. |
⚠ CONSEQUÊNCIA |
A roupa perdeu o monopólio do status visual para a pele, o cabelo e o corpo trabalhado. Não significa que deixou de importar — significa que cada peça precisa carregar mais significado para justificar o gasto. Roupa básica genérica perde para uma sessão de estética; roupa com narrativa, função ou identidade mantém ou ganha espaço. |
✅ DISCUTIR COM SEU TIME |
Para a confecção: aproximar-se das categorias adjacentes — athleisure como ponte com o fitness, peça com função técnica (proteção UV, antibacteriana, termorreguladora), vestuário profissional com identidade. Para o varejo: comunicar a peça como parte de uma rotina de cuidado pessoal, não como item isolado. Para o fabricante: fios e fibras com função técnica documentada permitem vender 'roupa que faz algo além de vestir'. |
7 — A virada de posicionamento: cinco frentes para não perder esse cliente
O diagnóstico só tem valor se levar a decisão. A pergunta do confeccionista é direta: 'como isso me atinge e o que faço para não perder vendas?'. Cinco frentes, todas factíveis no horizonte de planejamento atual:
📊 INFORMAÇÃO |
1. Aceitar que a disputa não é só com a Shein — o concorrente real é o conjunto formado por importados, bets, serviço da dívida, streaming e cuidados pessoais. 2. Sair do terreno do substituível: SKUs de básico genérico sem diferencial defensável perdem para o importado direto. 3. Investir em categorias inegociáveis: athleisure, profissional, infantil de ocasião, peça com narrativa de origem. 4. Comunicar diferenciais verificáveis: caimento documentado, durabilidade testada, gramatura declarada. 5. Reduzir capital empatado: lotes menores e reposição em 5 a 10 dias reduzem risco de pedido cancelado. A ABVTEX confirma que a estratégia setorial dominante em 2026 é exatamente essa: coleções de meia-estação, peças versáteis, produção flexível. |
📚 FONTE |
ABVTEX — Edmundo Lima (abr/2026); McKinsey ConsumerWise (2025); BTG Pactual (jan/2026); análise consolidada Lugli. |
⚠ CONSEQUÊNCIA |
Quem espera o cenário 'voltar ao normal' espera por algo que não volta. O consumidor que recompôs o orçamento com bets, assinaturas e cuidados pessoais não vai descomprometer essa parcela espontaneamente. A janela para reposicionar mix, comunicar diferencial e construir base leal é agora — não em 2027. |
✅ DISCUTIR COM SEU TIME |
Plano de 90 dias: (1) auditar o mix por SKU e identificar o que está na zona substituível; (2) descontinuar gradualmente os SKUs sem diferencial defensável; (3) produção piloto em 2-3 categorias inegociáveis; (4) documentar e comunicar o diferencial técnico de cada peça; (5) negociar com fornecedores de fio programações trimestrais com flexibilidade de mix. A Lugli Fibras e Fios pode fazer essa programação. |
O recado deste artigo em uma frase
A renda do brasileiro é a maior da história — e a roupa nunca ocupou tão pouco espaço nela. De cada R$ 100, quase R$ 30 saem para a dívida antes de qualquer compra; R$ 30 bilhões por mês vão para as bets, mais do que todo o varejo de moda fatura; e a fatia do vestuário caiu de 5,5% para cerca de 3,2% em quinze anos. Quando o gestor da confecção entende isso, deixa de competir só com a Shein — passa a competir com o cartão de crédito, o multistreaming e o jogo do tigrinho. E nessa disputa o caminho não é preço. É significado. |
No próximo e último artigo desta trilogia, O consumidor têxtil dos próximos cinco anos, vamos olhar para frente: envelhecimento da população, queda da natalidade, consolidação dos marketplaces asiáticos — e o que isso desenha para quem está planejando capacidade, mix e posicionamento.
Para conversar sobre como essa disputa por renda afeta a sua operação: (47) 99284-6721 | (47) 99915-3636 | www.luglifibrasefios.com.br
Fontes
1. IBGE — PNAD Contínua, módulo Rendimento de todas as fontes (divulgação mai/2026). Renda média de R$ 3.367 em 2025, recorde da série; per capita de R$ 2.264; +12,8% real sobre 2012.
2. IBGE — POF, Pesquisa de Orçamentos Familiares 2008-09 e 2017-18. Vestuário: 5,5% → 4,1% das despesas de consumo; ganhadores oficiais do período: educação, saúde e habitação. A POF 2024-25, que incluirá bets, ainda não foi divulgada.
3. FGV Social — Marcelo Neri, Evolução das Classes Econômicas Brasileiras 1976-2024 (jan/2026). Classes ABC em 78,2% da população; classe C com 61%.
4. IEMI — Instituto de Estudos e Marketing Industrial (2017-2025). Varejo de vestuário: 6,34 bi de peças e R$ 223,3 bi (2017); 6,17 bi e R$ 294,8 bi (2024); projeção de 6,37 bi e R$ 314,9 bi (2025).
5. Banco Central do Brasil — Estatísticas Monetárias e de Crédito (2026). Endividamento das famílias em 49,9% (recorde da série iniciada em 2005); comprometimento de renda de 29,7%, sendo 10,6 p.p. de juros; rotativo do cartão entre 428% e 440% a.a.; Selic em 14,5%.
6. CNC — Confederação Nacional do Comércio (abr/2026). Estudo Impacto das Apostas Online no Endividamento das Famílias: gastos com bets +500% em 3 anos; R$ 143 bi drenados do varejo (2023-2026); R$ 30 bi mensais; 23% dos apostadores reduziram gastos com vestuário; 270 mil famílias em inadimplência severa.
7. Peic/CNC — Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (abr-mai/2026). 80,9% das famílias com dívidas (recorde); cartão como principal fator para 83,6%.
8. Ibevar / FIA Business School (mar/2026). Cada 1% de aumento nas apostas eleva o endividamento em 0,23%; bets superam juros como principal fator de endividamento.
9. IBJR / LCA Consultoria (2025-26). Bets licenciadas: 0,46% do consumo das famílias em gasto líquido; Copa de 2026 como gatilho de aumento.
10. NielsenIQ via Fecomercio — Ranking Abad 2026. Abastecimento doméstico de 23,2% para 21,9% do orçamento (2023-25); gastos secundários de 29,2% para 31,4%; renda +3,8% e consumo +1,3% (2024-25).
11. FGV IBRE — Boletim Macro nº 176 (mar/2026). Comprometimento e endividamento próximos de recordes; 81,3 milhões de CPFs negativados (Serasa/Experian).
12. Conab e Abiec (2025-26). Consumo per capita de carne de 35 kg para 31,9 kg (-9%), atribuído à drenagem de renda pelas bets.
13. Tendências Consultoria (2025); Termômetro Abad NielsenIQ (mar/2026). Mudança estrutural em cuidados pessoais; canal farmacêutico +16% no 1º tri/2026.
14. ABVTEX — Edmundo Lima (abr/2026); McKinsey ConsumerWise (2025); BTG Pactual (jan/2026). Estratégia setorial e pressão competitiva de marketplaces asiáticos.
15. Elaboração Lugli sobre dados oficiais: deflação das séries pelo IPCA, decomposição do orçamento 2012-2025, correlação renda × vestuário e valores em reais por família. Identificadas no texto como estimativas.
Artigo produzido com auxilio de IA, e revisado, mas pode conter erros.
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