Bets vs. Vestuário: Como R$ 37 Bilhões em Apostas Comprimem o Consumo Têxtil no Brasil
- José Luiz Lugli

- há 2 dias
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Baseado em dados da PNAD Contínua / FGV IBRE e do Ministério da Fazenda — 2025
Abril de 2026
Em 2025, o Brasil alcançou o maior nível histórico de renda domiciliar per capita desde o início da série do IBGE, em 2012. A renda média mensal chegou a R$ 2.316. No mesmo ano, o mercado regulado de apostas esportivas — as bets — absorveu R$ 37 bilhões em receita bruta das famílias brasileiras. Dois números que deveriam ser lidos juntos por qualquer empresa do setor de moda, confecções e têxteis.
Porque o dinheiro que foi para as plataformas de apostas não foi para as lojas. Não comprou roupa, calçado, tecido ou fio. Não girou na cadeia produtiva do vestuário. Saiu do orçamento das famílias — especialmente das mais pobres — e ficou, em sua maior parte, com operadoras sediadas fora do Brasil.
Este artigo analisa, com dados concretos, o que essa transferência de renda significa para o setor têxtil e de vestuário.
1. Os Números que o Setor Precisa Conhecer
O mercado de bets em 2025
Segundo o Ministério da Fazenda, a Receita Bruta do Jogo (GGR) — conceito que representa o total apostado menos os prêmios pagos, ou seja, a perda líquida dos apostadores — totalizou R$ 37 bilhões em 2025. Foram 25,2 milhões de apostadores ativos ao longo do ano.
A matemática é direta: R$ 37 bilhões divididos por 25,2 milhões de apostadores resultam em uma perda média de R$ 1.468 por pessoa no ano — equivalente a R$ 122 por mês. Esse é o valor que saiu definitivamente do orçamento de cada apostador ativo, em média, sem retorno.

Fonte: Ministério da Fazenda — Secretaria de Prêmios e Apostas (SPA), 2025–2026.
A renda domiciliar per capita em 2025
O FGV IBRE, com base na PNAD Contínua ajustada pelo IPCA, documenta que a renda cresceu em todos os estados brasileiros — mas com enorme heterogeneidade. A recuperação pós-2022 foi a mais intensa da série histórica. Mesmo assim, a hierarquia entre os estados permanece praticamente inalterada: o Maranhão ocupa a última posição em todos os 13 anos analisados (R$ 1.219/mês em 2025), enquanto o Distrito Federal lidera isolado (R$ 4.538/mês).

Fonte: IBGE — PNAD Contínua Anual, valores ajustados pelo IPCA. Elaboração com base em FGV IBRE (2025) e SPA/MF (2025).
O impacto é radicalmente desigual: um apostador no Maranhão compromete 10% de sua renda per capita com bets — proporção quase quatro vezes maior que a de um apostador no Distrito Federal com o mesmo padrão de gasto. Esses 10% correspondem exatamente à faixa do orçamento que famílias de baixa renda costumam destinar a vestuário e calçados. |
2. O Que R$ 122 por Mês Representam para o Setor Têxtil
O orçamento têxtil que foi para as apostas
Para compreender o impacto das bets sobre o consumo de vestuário, é preciso contextualizá-lo dentro do orçamento familiar. Pesquisas do IBGE sobre gastos das famílias mostram que, nas faixas de 1 a 3 salários mínimos — onde se concentra a maior parte dos apostadores —, o percentual destinado a vestuário e calçados gira entre 5% e 8% da renda mensal.
Com renda per capita de R$ 1.200 a R$ 1.500 (padrão dos estados nordestinos), isso representa entre R$ 60 e R$ 120 mensais dedicados a roupas, calçados e acessórios. Ou seja: a perda média com bets (R$ 122/mês) equivale, nessas faixas de renda, à totalidade do orçamento têxtil mensal de um membro da família.

Nota: Preços estimados com base em médias de varejo popular nacional em 2025. Valores aproximados para fins ilustrativos.
Em termos anuais, os R$ 1.468 de perda líquida média representam, nas regiões de menor renda, o equivalente ao guarda-roupa básico de renovação anual de um adulto — aquele conjunto mínimo de peças que permite ao trabalhador apresentar-se dignamente ao emprego e ao convívio social. Quando esse valor vai para as bets, a renovação não acontece. A peça desgastada não é substituída. A criança não ganha o tênis novo para o início do ano letivo.
R$ 37 bilhões fora da cadeia têxtil
Para o setor como um todo, a dimensão é ainda mais expressiva. Os R$ 37 bilhões de GGR representam uma contração de demanda potencial que, se mantida no consumo ordinário das famílias, circularia pela economia doméstica — incluindo o varejo de moda, as confecções, os atacados têxteis e, em última instância, os fabricantes de fios e tecidos.
O setor têxtil-confecções brasileiro emprega cerca de 1,5 milhão de trabalhadores formais e é intensivo em mão de obra. Sua performance está diretamente ligada à renda disponível das classes C, D e E — exatamente o público mais afetado pelas bets. Quando o orçamento dessas famílias é comprimido por perdas em apostas, o varejo de moda popular sente primeiro.
Se apenas 10% dos R$ 37 bilhões perdidos nas bets tivessem permanecido no consumo de vestuário, o setor têxtil-confecções teria absorvido R$ 3,7 bilhões adicionais em demanda — o equivalente a meses de faturamento de um grande atacado nacional ou à abertura de centenas de pequenas confecções regionais. |
3. O Nordeste no Centro do Problema
O FGV IBRE documenta um dado aparentemente contraditório: os estados nordestinos foram os que mais cresceram em renda per capita entre 2012 e 2025. Tocantins liderou com 3,87% ao ano; Rio Grande do Norte registrou 3,77%; Piauí, 3,60% — todos acima da média nacional de 2,03% ao ano.
Mas esse crescimento, por maior que seja em termos percentuais, não foi suficiente para alterar a posição relativa desses estados no ranking nacional. O Maranhão cresceu 3,34% ao ano por 13 anos seguidos e ainda assim permanece na última posição. A distância estrutural em relação aos estados mais ricos é tão grande que o crescimento relativo, por si só, não a fecha.
É nesse contexto que as apostas exercem seu efeito mais perverso. Anos de política pública de transferência de renda, formalização do mercado de trabalho e expansão do crédito popular elevaram a renda das famílias nordestinas. As bets funcionam como um mecanismo silencioso de drenagem parcial desses ganhos — e o fazem proporcionalmente mais nas regiões que menos podem se dar ao luxo de perder.
Para o varejo têxtil com atuação no Nordeste — e para os fabricantes que abastecem esse mercado —, trata-se de uma supressão real de demanda potencial, concentrada exatamente na faixa de consumidor que sustenta o volume de vendas do segmento popular.
4. O Que Isso Significa para as Empresas do Setor
Nenhuma empresa do setor têxtil e de vestuário consegue isolar seu desempenho das condições de renda disponível de seus clientes finais. E a renda disponível não é apenas aquilo que as famílias ganham — é o que sobra depois de pagar as contas, incluindo as que elas escolhem pagar voluntariamente, como apostas.
Os dados de 2025 mostram que R$ 37 bilhões saíram do orçamento das famílias brasileiras e não circularam no consumo doméstico. Uma parcela desconhecida, mas relevante, desse valor viria naturalmente para o setor de moda e vestuário — especialmente no varejo popular e nos segmentos de renovação básica de guarda-roupa.
Monitorar o crescimento das bets não é apenas um exercício de análise econômica abstrata. É uma variável de mercado concreta, que afeta o poder de compra do consumidor final, comprime a demanda por itens de vestuário nas faixas de menor renda e pressiona as margens do varejo popular — que, por sua vez, pressiona os fornecedores de confecções, tecidos, fios e fibras.
Empresas que entendem esse mecanismo estão mais bem posicionadas para antecipar movimentos de demanda, calibrar estratégias de produto e comunicação, e contribuir para o debate público sobre políticas que protejam o poder de consumo das famílias brasileiras.
Fontes
BARRETO, F.A.; PENNA, C.M.; FREITAS, T.A.; AVELINO, P. A dinâmica recente da renda domiciliar dos estados brasileiros. Blog do IBRE / FGV, 2025.
BRASIL. Ministério da Fazenda — Secretaria de Prêmios e Apostas (SPA). Nota oficial sobre o mercado regulado de apostas em 2025. Janeiro de 2026.
BRASIL. Ministério da Fazenda — SPA. Nota sobre o 1º semestre de 2025 do mercado de apostas. Agosto de 2025.
IBGE. PNAD Contínua — Rendimento de todas as fontes, 2025.

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